
Depois de aterrar em Cabinda, fui a correr agarrar a mala logo que desci do avião. Voltei a colocar tudo dentro da mochila e lá saí do terminal aeroportuário de Cabinda.
Chegado cá fora, debaixo de um sol lindo, escolhi um taxi particular, coisa que em Luanda é menos frequente de ver... Com efeito, em Luanda funciona mais o sistema das carrinhas azuis dos candongueiros...
O nome do taxista era Elias... Com um grande sorriso na cara, lá me levou para o meu destino na cidade de Cabinda...

O carro dele era muito engraçado... Ao exercer o meu hábito de colocar o cinto de segurança, reparei que o carro não tinha... Já tinham sido certamente arrancados numa outra guerra... O carro era muito velho e da tinta original, já não existiam vestígios...
Então lá arrancámos pela estrada fora e, com o meu cotovelo de fora na janela, reparo que as portas já não têm vidros e os manípulos para subir os desaparecidos vidros também haviam seguido o mesmo destino...

Mas a minha surpresa concretizava-se agora ao olhar com mais atenção para a frente quando reparo que bem no canto superior direito do vidro da frente do carro, mesmo diante dos meus olhos, estava um buraco de bala bem bonitinho daqueles que dá para enfiar lá o indicador bem à justa...
Bem... isto é o corolário de que o melhor é aproveitar a vida enquanto cá estamos, porque no minuto seguinte não sabemos o que será do nosso destino... Interrogava-me se aquele buraco de bala teria sido o resultado de algum assalto ou uma bala oferecida pelo movimento separatista das FLEC.

Depois de percorrer um caminho de uns 20 minutos, em que o meu taxista ia cumprimentando toda a gente por quem passávamos... Um tipo muito conhecido ali por aquelas bandas e aparentemente muito acarinhado...
Vamos embora... vamos embora... que já estou atrasado... óhhh Elias... rsrsrs O carro não dá mais, amigo??? - Digo-lhe eu...

Uma das coisas que mais me chamou a atenção em Cabinda é o facto das ruas se enontrarem limpas e não se ver lixo espalhado por todo o lado como ocorre em Luanda... Embora a cidade tenha um aspecto extremamente pobre e rústico, é daquela zona que sai o petróleo que alimenta grande parte da economia de Angola...
Como em qualquer zona do país, o pó vermelho é omnipresente, tanto nas ruas como dentro das casas...
Finalmente, cheguei ao meu destino onde fui tratar de assuntos relacionados com as Eleições Legislativas 2008, que se iriam realizar no início de Setembro...

Passei o dia todo nas instalações do meu cliente e às tantas, as coisas acabaram por demorar mais do que eu esperava e fiquei muito em cima da hora para apanhar avião de volta para Luanda...
Como estava mesmo muito apertado de tempo, pedi se eles poderiam arranjar um motorista para me levar... Então, passado um bocado dizem-me que estão todos fora... e que não tinham ninguém...
Entretanto, quando o meu coração já estava um bocado acelerado com a perspetiva de perder o avião e ter de regressar só no dia seguinte, descobre-se um motorista...

Então, lá vou eu de mochila às costas... e depois de chegar ao motorista, ele fala que não me pode levar porque o jipe dele não tinha gasóleo...
- Ahhhhhhhhhh!!! Digo eu para ele...
- Ohhhh, homem eu pago o gasóleo!!! Vamos lá meter gasóleo... e os minutos a contar... Até parecia que ouvia o relógio do meu telemóvel... tic.. tac... tic... tac... Pois, mas..., na verdade, era antes o barulho das batidas do meu coração...
Embora, apenas fosse uma pessoa para apanhar avião (euzinho...) íamos 5 pessoas no jipe e acho que só não foram mais porque não cabiam.
Lá fomos meter gasóleo na único posto de abastecimento que havia por ali, bem situado no meio de uma praça... Chegados lá, encarámo-nos com uma fila de carros parados que rodeava a praça toda... Deviam ser pelo menos uns 50 carros para meter combustível...

Demos duas voltas à praça, perfeitamente incrédulos com a situação e as batidas do meu coração já batiam ao som do sino da igreja da praça...
Então chegámo-nos à frente de todos, bem junto da bomba de combustível e pedimos para nos deixarem meter gasóleo pois eu estava muito atrasado para apanhar o avião... É impressionante como foram todos impecáveis e simpáticos, sem ninguém refilar.,.. Estaria a imaginar uma cena destas com 50 carros em Portugal... Estariam agora a ver os meus presuntos penduradinhos ao fumeiro... hahaha...
Enquanto tudo aquilo acontecia, passa um cortejo funebre de carros, a rítmo rápido, em que o caixão ia numa camionete de caixa aberta, totalmente coberto de mulheres (vivas, claro... rsrss) vestidas com roupas tradicionais e deixando um rasto de cantares e choros para trás...

Metemos 600 Kwanzas de gasóleo e lá fomos nós à pressa para o aeroporto, quando somos confrontados por uma fila enorme de carros para sair de Cabinda... Então o motorista, deu meia volta e fomos passar por intermédio de uns bairros de lata, onde se vê o que é a pobreza e a miséria no seu pior, mas sempre com ruas limpas de lixo...
Aproveitando aquele atalho, lá fomos chegando ao aeroporto... Por aquela altura, já não fazia a mínima ideia se ainda iria conseguir apanhar o avião... apenas confiava nos atrasos constantes que se verificam nas partidas...

Chegado ao aeroporto, seguido pela fantástica comitiva de despedida que me acompanhava, vou ao check-in e apresentei o meu bilhete, com a minha língua pendurada para fora, tal não era o stress...
A senhora do balcão, diz-me então:
- O senhor não tem reserva efectuada!
- Ahhh!!! Não tenho reserva?!?! Digo incrédulo...
- Mas olhe... - continuei eu -, tenho aqui a reserva indicada no bilhete da TAG!!! Como é que não tenho reserva?
- Pois... mas o senhor precisava de ter efectuado a confirmação da sua reserva com antecedência...
A minha alma, ainda pouco habituada às práticas de vida de Angola não conseguia entender que ali é preciso confirmar antecipadamente uma reserva que, supostamente, já estaria confirmada... Afinal uma reserva deveria querer dizer que tinha a passagem reservada para mim... E ainda por cima, no próprio bilhete dizia que a reserva estava confirmada pela agência...

Às tantas, digo:
- Quero falar com o responsável... Pode chamá-lo, por favor? E ela diz: Aqui não tenho de telefone... Tem de ir ter com ele ao escritório, cuja entrada fica do lado de fora do terminal no piso de cima...
Depois de andarmos todos à procura do responsável da TAG, lá consigo falar com ele... Então ele diz-me que não pode fazer nada porque eu devia ter feito a reserva antecipadamente e agora já era tarde de mais...
Então tive de lhe explicar que estava em trabalho para um cliente institucional muito importante e que precisava de estar a certa hora em Luanda para uma reunião... Caso não estivesse iriam ser pedidas responsabilidades pelas próprias entidades governamentais...

Ele coçou o queixo e disse-me:
- Mostre-me lá outra vez o bilhete...
Então levou o dito ao balcão do check-in e disse à senhora que lá estava que podia aceitar o meu bilhete... Depois disse-me para, da próxima vez, confirmar antecipadamente a passagem...
Uff!!! Feitos os abraços à comissão de despedidas (fantásticos tipos) e os devidos agradecimentos por todo o apoio e ajuda dada, lá sigo para a sala de embarque...
Fogo!!! Vamos agora acalmar... Entretanto, tive oportunidade para acalmar mesmo pois, mesmo tendo chegado atrasado, ainda esperei mais de três horas pela partida...
Aparentemente, o avião que era para vir, teve um furo e teve de ficar parado, numa nuvem qualquer, à espera de um reboque vindo do espaço...

Quando finalmente, apanhei o autocarro que me levaria ao avião, já era noite escura... Chegados ao avião, estava tão escuro que tinhamos dificuldade em ver onde é que estava o bicho... Os funcionários tiveram de nos chamar aos gritos, dizendo: É por aqui!!! É por aqui!!!
Ao chegar a Luanda, foi com alegria que revi o motorista que me veio buscar...

Fogo!!! Que dia... Decididamente, prefiro andar em aviões militares...